A nota do cliente e a cara do sistema

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Ilustração em estilo cartoon flat: numa escrivaninha de madrugada, o autor do diário desliza com a mão uma régua luminosa que separa a faixa verde da vermelha num painel de avaliações mostradas em estrelas e barras coloridas; à direita, um robô vermelho aponta para a faixa vermelha e um robô teal confere o ajuste; à esquerda, um robô amarelo segura um leque de amostras de cor e há cartões escuros descartados sobre a mesa; num canto, um robô azul entrega um único envelope enquanto uma pilha de envelopes iguais fica esquecida atrás dele.
com IA

Dias 45 a 49 · 9 a 13 de maio – 2026

Até aqui o sistema media coisas que eu controlava: quanto vendeu, quanto entrou, quanto atrasou. Nestes cinco dias ele passou a medir uma coisa que eu não controlo — o que o cliente achou. E, no meio do caminho, ganhou uma cara nova, o que rendeu a discussão mais boba e mais reveladora do projeto até então.

A nota que estava lá e ninguém olhava

As avaliações dos clientes sempre existiram. Ficavam num canto do sistema de comandas, uma tela que abria devagar, que ninguém tinha o hábito de visitar e que só mostrava o mês corrente.

Trouxe tudo para dentro: uma aba nova, com a nota de cada loja, a evolução mês a mês e a comparação entre unidades. Puxei o histórico desde janeiro do ano anterior, para que a primeira tela já nascesse com passado — número solto não diz nada, número em série conta uma história.

Foi aí que começou a parte interessante.

Onde fica o vermelho

Uma tela de nota precisa de cores: verde para bom, vermelho para ruim. Parece a decisão mais simples do dia. Não é. Ela define o que a empresa vai considerar aceitável.

Coloquei a primeira régua, olhei e não gostei: quase tudo estava verde. Uma tela em que está tudo bem não serve para nada — ninguém age olhando para ela. Apertei os limites. Aí quase tudo virou vermelho, e o efeito foi pior: quando tudo é urgente, nada é urgente, e a pessoa aprende em dois dias a ignorar a tela inteira.

Mexi três vezes até chegar num ponto em que o vermelho aparece pouco e, quando aparece, alguém levanta da cadeira. Foi só ajustar número, mas na prática eu estava respondendo uma pergunta que não é técnica: a partir de que ponto a gente não aceita mais?

Um painel não mostra a realidade. Ele mostra a régua de quem o construiu.

A limpeza da classificação de vendas

Ainda no assunto de números que enganam, arrumei uma coisa que vinha sujando os relatórios havia tempo.

O sistema classificava as vendas por canal: entrega, balcão, retirada. Só que a origem dos dados usa nomes que não batem entre si — alguns pedidos vinham marcados de um jeito, outros de outro, e um mesmo tipo de venda aparecia em duas categorias diferentes. O total geral fechava certo, e por isso ninguém percebia; a divisão por canal é que estava errada.

Alinhei tudo com a planilha oficial da operação. E ali estava, de novo, o mesmo tipo de erro que já tinha aparecido no projeto: aquele que não quebra nada, não gera mensagem de erro e só entrega o número errado com cara de certo.

O redesenho, e o que ele custou

O dia 48 foi inteiro dedicado à aparência. Eu vinha adiando isso porque parecia frescura perto de tudo que faltava.

O sistema tinha crescido em camadas — cada tela feita numa época, com uma cor um pouco diferente, um espaçamento próprio, um tamanho de fonte que ninguém combinou. Não era feio de um jeito escandaloso. Era irregular, do jeito que cansa sem que você saiba explicar por quê.

Padronizei o sistema inteiro, tela por tela, em três levas. A mudança mais importante não foi visual: em vez de escrever as cores diretamente em cada lugar, passei a usar nomes — “cor de fundo do cartão”, “cor de texto secundário”. Agora, mudar a aparência de tudo é mudar num lugar só. É o tipo de trabalho que não aparece em foto e que decide se daqui a seis meses ainda vai dar para mexer nisso sem sofrimento.

Também refiz a tela de entrada, com um visual mais editorial. E aprendi na marra que nem toda ideia boa sobrevive: testei deixar os cartões com um degradê escuro, achei bonito, coloquei em tudo — e desfiz no mesmo dia. Ficou pesado, atrapalhou a leitura dos números. Voltar atrás rápido é mais barato que defender o que já ficou pronto.

Esse negócio de aparência é interessante porque tem mais a ver com percepção do que com gosto. O mais importante mesmo é que as informações estejam disponíveis e cada uma com o destaque que merece. Quanto menos firula, melhor.

Uma última sensação: a identidade visual desse sistema ainda vai mudar outras vezes…

O farol e a entrega curta

Fechei esses dias com dois trabalhos no app de delivery.

O primeiro foi um farol de tempo de entrega. Ele confere, de vinte em vinte minutos ao longo do dia inteiro, o tempo prometido nas lojas — com um detalhe que muda tudo: mede o raio mais curto, meio quilômetro, o pedido do vizinho. É ali que o cliente perde a paciência. Ele também percebe quando uma loja muda de modo de operação e ajusta o que espera dela, em vez de gritar erro à toa.

O segundo foi mudar o jeito de avisar sobre lojas pausadas. Antes saía uma mensagem geral para todo mundo, listando tudo. Agora cada gerente recebe a mensagem dele, com saudação pelo nome e só as lojas que são dele — e um relatório agrupado por região.

Parece detalhe cosmético. Não é. Mensagem que fala com todo mundo não fala com ninguém: cada um lê, procura o nome da própria loja no meio da lista e, se não achar rápido, some. Quando chega o nome da pessoa e só o que é dela, a resposta vem.

A lição desses dias

Duas lições, e as duas são sobre a mesma coisa por ângulos diferentes.

A primeira: medir é escolher. Não existe painel neutro. Onde você põe o vermelho, o que você conta como entrega e como balcão, qual prazo você considera atraso — tudo isso é opinião disfarçada de número. Quem constrói o painel está, sem alarde, definindo o que a empresa vai perseguir. Vale saber que se está fazendo isso.

A segunda: a forma também é função. Passei semanas achando que aparência era o que sobra depois do que importa. Mas o painel que ninguém abre não mede nada, e a mensagem que não fala com você não avisa nada. Uma informação que não é lida é igual a uma informação que não existe.

No próximo capítulo, eu paro de programar cada ordem e começo a escrever o que quero em português — e um dos robôs finalmente ganha nome.

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