
Dias 40 a 44 · 4 a 8 de maio – 2026
Tem uma diferença grande entre resolver um problema e resolver o problema para outra pessoa. Nos cinco dias deste capítulo eu descobri isso do jeito mais direto: vendo alguém tentar usar uma coisa que eu tinha feito e que, para mim, funcionava perfeitamente.
Um cartão de visita que o celular aceitasse
Comecei com uma bobagem que estava me incomodando havia semanas. O sistema exportava a lista de contatos da operação num arquivo só, com todo mundo dentro. No papel, ótimo. Na prática, o iPhone recebia aquele arquivo pelo AirDrop e fazia o que bem entendia — às vezes importava tudo, às vezes importava metade, às vezes não importava nada.
Parei de brigar com o formato e mudei a entrega: agora sai um arquivo por pessoa, todos dentro de uma pasta compactada. Feio? Um pouco. Funciona sempre? Funciona.
Aproveitei e consertei um detalhe que ninguém tinha notado: o nome de cada contato estava indo no campo errado do cartão, o do sobrenome. Por isso a lista do celular ficava esquisita, ordenada de um jeito que não fazia sentido.
O dia em que o navegador estava certo e o programa errado
No dia seguinte apareceu um daqueles problemas que fazem você duvidar da própria sanidade.
A importação de dados do sistema de frente de loja parou de funcionar. E o mais irritante: quando eu abria o mesmo endereço no navegador, carregava normalmente. Mesmo endereço, mesma internet, mesma hora. O navegador entrava; o meu programa, não.
A causa é chata de explicar e vou tentar do jeito simples. Todo site seguro apresenta um documento de identidade digital. Só que esse documento normalmente vem acompanhado de uma espécie de carta de recomendação, emitida por quem garante que ele é verdadeiro. O servidor do sistema de frente de loja estava mandando só a identidade, sem a carta.
O navegador, quando isso acontece, é esperto: ele vai atrás da carta sozinho, encontra e segue em frente. O meu programa não fazia isso — recebia a identidade sem recomendação, considerava suspeito e desistia. Do ponto de vista dele, estava agindo certo.
A solução foi ensinar o programa a aceitar aquele documento especificamente daquele endereço, e de mais nenhum. Isso importa: seria muito mais fácil desligar a verificação para tudo e acabar com o assunto. Mas aí eu teria trocado um problema pontual por um buraco de segurança permanente — o tipo de atalho que ninguém lembra que tomou, até o dia em que ele cobra.
O sistema que cobra sozinho
O dia 42 foi o mais produtivo desse trecho, e girou em torno de uma dor antiga: reclamação de cliente que fica sem resposta.
Nasceu o Monitor de Chamados, uma tela que mostra cada reclamação aberta, quem é o responsável e há quanto tempo está parada. Até aí, um painel. O que muda o jogo é o que veio junto: se um chamado passa de vinte e quatro horas sem resposta, o sistema cobra sozinho, no grupo, marcando o gerente responsável.
E ele também dá parabéns. Quando o gerente responde e resolve, o robô agradece na mesma conversa. Escrevi isso quase por brincadeira e virou uma das coisas de que mais gosto no projeto — porque um sistema que só cobra vira inimigo, e inimigo a gente aprende a ignorar.
Nesse mesmo dia consertei duas coisas na mensagem automática. A primeira: para marcar o gerente no grupo, o robô estava digitando o arroba seguido dos últimos dígitos do telefone. Funcionava, mas ficava horrível de ler. Passou a marcar pelo nome, como uma pessoa faria.
A segunda foi mais interessante como decisão. Para descobrir qual gerente era o responsável por cada chamado, eu tinha colocado uma inteligência artificial para adivinhar a partir do texto do e-mail. Funcionava quase sempre — e “quase sempre” é péssimo quando o resultado é marcar a pessoa errada na frente de todo mundo.
Troquei a IA por uma regra de três linhas: comparar o e-mail de quem respondeu com a lista de e-mails corporativos. Ou bate, ou não bate. Cem por cento de acerto, resposta instantânea, custo zero.
Ter a ferramenta não obriga a usá-la. Eu estava usando um martelo de IA num parafuso que pedia uma chave de fenda.
A maquininha entrando sozinha
Os dois últimos dias foram sobre o fechamento de caixa, e sobre uma humilhação particular.
Todo dia alguém precisava entrar no portal da Azulzinha — a operadora das maquininhas — copiar os valores de crédito e digitar no sistema. Digitação manual de número é a mãe de todo erro de conferência. Fiz o sistema buscar sozinho: um botão, e os valores de crédito entram direto. Depois vieram os vales — refeição, alimentação, todos aqueles cartões diferentes — pelo mesmo caminho.
E aí veio o problema de verdade.
O passo que eu não via porque era fácil para mim
Para o sistema conseguir entrar no portal da operadora, ele precisa de uma espécie de crachá temporário, que expira. Renovar esse crachá exigia abrir as ferramentas de programador do navegador, achar um pedaço de texto no meio de um monte de código e copiar.
Eu fazia isso em quinze segundos, sem pensar. Escrevi um passo a passo, achei que estava resolvido, e mandei para quem ia usar.
Não estava resolvido. Ninguém que não é programador abre ferramenta de programador. E se abre, não sabe o que está olhando. Eu tinha automatizado a parte difícil e deixado a parte impossível na mão do outro.
A saída foi construir uma extensão de navegador própria, batizada de Token Bridge. Instalou uma vez, e a renovação do crachá vira um clique num botão. Sem código, sem ferramenta de programador, sem passo a passo.
Não saiu de primeira. Recebi de volta um “precisei clicar duas vezes”, e depois um “precisei clicar três vezes”. A causa era um comportamento do próprio navegador, que desliga a extensão quando ela fica parada e demora para acordá-la. Resolvi acordando a extensão antes da hora e tentando de novo, sozinho, quando falha.
Fechei esses dias reorganizando a tela: tirei todos os botões de importação de dados do meio da conferência e juntei numa aba só, chamada Upload de Dados. Cada coisa num lugar.
O interessante dessa extensão é que ela só funciona em navegadores que usam a tecnologia do Google Chrome e consegui fazer ela sem custo porque ela fica instalada na máquina do usuário. Solução fina e grátis!!
A lição desses dias
A lição não é sobre a extensão. É sobre o que ela revelou.
Eu tinha certeza de que aquele passo estava resolvido, porque era fácil para mim. Só descobri que não estava quando vi outra pessoa tentando. Quem constrói uma ferramenta é o pior juiz da facilidade dela: você conhece o caminho, sabe o nome das coisas, e o esforço que sobra some do seu campo de visão.
O sinal de alerta tem uma forma bem específica, e agora eu presto atenção nela: sempre que eu escrevo um passo a passo explicando como contornar algo, o passo a passo não é a solução. É a confissão de que faltou resolver.
E teve a segunda lição, mais barata de aprender: o dia em que troquei uma inteligência artificial por três linhas de regra. Ferramenta poderosa seduz. Mas ninguém usa uma retroescavadeira para plantar um vaso — e usar IA para comparar dois endereços de e-mail é exatamente isso, com a desvantagem de a retroescavadeira errar de vez em quando.
No próximo capítulo, o sistema começa a medir uma coisa que eu vinha evitando: a nota que o cliente dá. E ganha uma cara nova no meio do caminho.
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