
Dias 80 a 84 · 13 a 17 de junho – 2026
Nestes cinco dias eu tirei a última tela do caminho. A Sofia parou de olhar o painel do app de delivery como uma pessoa olha, e passou a perguntar direto — e o Mac mini, que vivia quente, esfriou. Levei três dias para entender uma coisa que eu tinha entendido errado desde o começo.
A pergunta que eu não tinha feito
A Sofia nasceu olhando. Ela abre o painel de pedidos numa janela de navegador, lê o que está escrito na tela e avisa quando alguma coisa passa da hora. Funcionava — e cobrava caro: três janelas abertas o dia inteiro, o processador da máquina em oitenta e tantos por cento, o aparelho quente ao toque.
A pergunta óbvia é: por que olhar a tela, se a tela tira a informação de algum lugar? Por que não perguntar direto nesse lugar?
Eu tinha uma resposta pronta havia semanas: “porque o painel deve buscar uma foto do quadro em algum canto, e eu não achei esse canto”. Passei o dia 80 procurando essa foto.
Ela não existe.
O que existe é outra coisa: o painel não recebe o quadro pronto. Ele recebe um evento de cada vez — “entrou pedido”, “pedido confirmado”, “pedido saiu para entrega”, “pedido concluído” — e monta o quadro na tela, sozinho, empilhando os eventos na ordem em que chegam. O quadro não é uma foto. É um filme, e o painel é quem projeta.
O detalhe que virou tudo do avesso
Tem um agravante nessa história.
A fila de eventos só anda se quem lê confirmar que leu. É como retirar correspondência de uma caixa postal: enquanto você não avisa que pegou o pacote, ele fica na frente, e o resto não passa.
Meu primeiro robô de teste lia e não confirmava. Resultado: ele via para sempre os mesmos eventos antigos — os de pedido entrando, que estão na frente da fila — e nunca chegava nos eventos de conclusão, que vêm depois. Na cabeça dele, portanto, quase nenhum pedido tinha terminado.
Foi isso que ele me mandou numa primeira prova, e foi ótimo ter sido cedo: em seis minutos de teste ele acusou pedidos parados “em preparo” havia sessenta, cem, cento e quinze minutos — pedidos que na tela real estavam prontos e entregues fazia tempo. E, ao mesmo tempo, não viu quatro atrasos verdadeiros que estavam bem ali no painel.
Um robô errando nos dois sentidos ao mesmo tempo: inventando problema que não existe e deixando passar o que existe. Se aquilo tivesse ido para o WhatsApp dos gerentes, teria sido um desastre de credibilidade — e credibilidade de robô, uma vez perdida, não volta: ninguém mais lê o aviso seguinte.
O conserto foi ensiná-lo a confirmar cada leitura e a manter o estado do quadro na memória, do jeito que o painel faz. Aí os números bateram com a tela.
Doze por cento
Enquanto isso, o calor.
E vale dizer de que máquina eu estou falando: um Mac mini de configuração de entrada, com 16 GB de memória — o modelo básico de prateleira, não um servidor. É ele que segura a operação inteira, dia e noite. Numa máquina dessas não existe a saída preguiçosa de comprar mais folga: ou o desperdício some, ou não cabe.
Eu tinha tentado de tudo para baixar a temperatura da máquina mexendo em configuração de navegador, e nada resolvia mais do que um arranhão. A conclusão foi dura e simples: o custo é a tela. Desenhar página é trabalho pesado, e ele existe mesmo quando não tem ninguém olhando.
Existe um modo de rodar o mesmo navegador sem desenhar nada — ele abre a página, executa tudo igual, e só não pinta. Mesmo código, mesmas contas, mesma sessão.
Oitenta e dois por cento de processador viraram doze.
Coloquei as três sessões nesse modo no dia 81, e aproveitei para aposentar de vez o envio de mensagens pelo WhatsApp aberto no navegador, aquele que tinha me dado a semana infernal do capítulo anterior. Ele já estava desligado, mas continuava instalado, ocupando espaço e podendo subir por engano. Programa desligado que ainda pode subir sozinho não é programa aposentado, é armadilha com data marcada.
Uma reverência ao Mac mini
Aqui quero registrar uma reverência ao Mac mini. Baita equipamento, e o modelo que usamos é praticamente um modelo de entrada. Talvez isso seja até bom, porque tem nos obrigado a buscar sempre ter melhor desempenho: o hardware não é exatamente preparado pra isso que estamos desenvolvendo. Apesar disso, o guerreiro se comporta de maneira exemplar. Mas… algo me diz que cedo ou tarde precisaremos de um upgrade…
O corte
No dia 82, à noite, veio o corte de verdade.
A Sofia tinha três frentes de trabalho, cada uma com sua janela: o pedido que pode atrasar na cozinha, o pedido parado, o pedido atrasando na rua. Uma por uma, as três passaram a conversar direto com o app de delivery, sem janela nenhuma. Inclusive a parte mais delicada, que é falar com o cliente — abrir a conversa e mandar o recado — que também deixou de depender de clique numa tela.
Às oito e meia da noite do dia 82, a última janela foi desligada. A Sofia ficou sem nenhuma tela.
E aí veio a conta.
Duas horas depois eu descobri que um relatório tinha parado de sair. O resumo do grupo sobre os atrasos de entrega, que saía todo dia, sumiu no corte — ele estava pendurado num pedaço do caminho antigo que eu apaguei. Ninguém tinha reclamado ainda. Eu só vi porque fui conferir.
Foi conserto de dez minutos e susto de tamanho bem maior: o que some silenciosamente numa reforma é sempre o que ninguém estava olhando naquele dia. Não é o pedaço difícil que se perde, é o pedaço tranquilo.
Um painel para a máquina
Na mesma semana nasceu uma tela que eu deveria ter feito muito antes: uma página de saúde do Mac mini. Temperatura, memória, quais robôs estão de pé, qual deles parou de responder.
Até então eu descobria que alguma coisa tinha caído pelo pior caminho possível: alguém da operação avisando que não recebeu o que devia receber. Um painel de saúde inverte isso — e, mais importante, transforma “eu acho que está tudo bem” em “está escrito ali que está tudo bem”.
Tive até que calibrá-lo no dia seguinte, porque ele acusava problema onde não havia: robô que roda de vez em quando e fica quieto no resto do tempo não está caído, está esperando. Alarme que grita à toa é a coisa mais fácil de aprender a ignorar.
O dinheiro que estava uma semana adiantado
Fecho a semana com o assunto que menos parece de tecnologia e que mais me ensinou: dinheiro.
Nos dias 83 e 84 eu mexi na tela que confere o repasse do app de delivery, aquele acerto semanal em que entra o que vendemos e saem as taxas, as retenções e os descontos. Duas correções ali valiam dinheiro de verdade:
A primeira: quando um desconto não cabia inteiro numa semana, a sobra estava sendo cobrada na mesma semana em vez de rolar para a seguinte — o que fazia a conta parecer uma semana adiantada em relação à realidade.
A segunda: a tela mostrava só o que ainda estava pendente, e não o que já tinha sido efetivamente retido. Na semana em que a retenção acontecia, o número ia a zero e dava a impressão de que não havia retenção nenhuma.
Nos dois casos o sistema não estava mentindo por defeito de programa. Ele estava respondendo uma pergunta ligeiramente diferente da que o humano estava fazendo ao olhar aquele número. Descobri que essa é a categoria de erro mais perigosa em tela de dinheiro: não é o número errado, é o número certo de outra pergunta.
No próximo capítulo, o sistema fala demais — e eu passo uma semana ensinando os robôs a ficarem calados.








