Aguardando mensagem

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Ilustração em estilo cartoon flat: escritório de madrugada, com a janela à esquerda mostrando a lua crescente e as luzes da cidade. Agachado diante de um arquivo de aço aberto, o autor do diário guarda pastas cheias de cópias de envelopes amarelos idênticos, e olha para o outro lado da sala com o ar de quem acabou de entender a solução; a xícara de café fumegante está no chão ao lado dele. Na parede, uma fresta de correspondência com um envelope entalado pela metade. À direita, em primeiro plano, o robô amarelo segura com as duas mãos um envelope grande fechado por um cadeado que ele não consegue abrir, os olhos verde-ciano caídos numa expressão paciente e confusa; no chão, ao lado dos pés dele, uma ampulheta com toda a areia já parada no fundo. Ao fundo, a escrivaninha com o monitor aceso, a luminária âmbar e as estantes de livros.
com IA

Dias 75 a 79 · 8 a 12 de junho – 2026

Nestes cinco dias o robô passou a falar com o WhatsApp por dentro, sem navegador, e eu descobri que trocar a peça é a parte fácil. Foi também a semana em que o sistema deixou de cuidar só de pedido e comida e encostou no dinheiro — o que muda o tamanho do erro.

O caderno de contatos que apagava sozinho

O dia 75 tem quatro consertos no cadastro de contatos, um atrás do outro, em pouco mais de uma hora. Três são pequenos: o telefone passou a ser opcional, a busca por nome voltou a filtrar de verdade e a edição que “não salvava” voltou a salvar — ela salvava, mas a tela relia um retrato velho e mostrava o texto de antes, o que dá exatamente a mesma sensação de não ter salvo.

O quarto não é pequeno.

O sistema sincroniza os contatos com a agenda do iCloud, para que os telefones sejam os mesmos em todo lugar. E essa sincronização ressuscitava gente que já tinha saído da empresa: um gerente desligado, marcado como inativo, voltava sozinho para a lista — e voltava a receber mensagem da operação. Enquanto isso, o gerente novo, que era quem devia receber, ficava sem.

A cadeia era esta, e ela é velha conhecida deste diário: quando o sistema mandava a atualização para o iCloud, o outro lado respondia com um código de erro sem reclamar — e o programa que eu escrevi não olhava o código, só o fato de ter recebido resposta. Então ele anotava “atualizado com sucesso” e seguia. Na sincronização seguinte, comparando os dois lados, o cartão do iCloud parecia o mais novo — e o velho vinha por cima do certo.

Nenhuma atualização nossa jamais tinha chegado lá. Nenhuma. Só a criação de contato funcionava, e por isso ninguém percebeu: contato novo aparecia, e o resto parecia mexer.

É a terceira vez que escrevo isso aqui em cinco capítulos: resposta não é resultado. Desta vez com um detalhe novo — o sistema não estava só errando. Estava errando e se dando parabéns.

Aguardando mensagem

O robô já estava mandando as mensagens da casa pelo caminho novo: por dentro do WhatsApp, sem navegador nenhum aberto. Aí veio a reclamação de um gerente: no lugar do recado, aparecia no celular dele “Aguardando mensagem. Essa ação pode levar alguns instantes.” — e não chegava nunca. No tablet, a mesma mensagem abria normalmente.

Levei um tempo até entender.

Conversa de WhatsApp é lacrada de ponta a ponta: cada aparelho da pessoa abre a mensagem com a chave dele. Quando um aparelho não consegue abrir — porque a sessão dele dessincronizou —, ele faz uma coisa educada: pede a mensagem de volta para quem mandou, para receber uma via nova, lacrada de outro jeito.

O meu robô mandava e esquecia. Ele não guardava cópia de nada. Então o pedido chegava, ele não tinha o que devolver, e o aparelho ficava esperando para sempre — com aquele aviso na tela.

O conserto foi ensinar o robô a guardar as últimas mensagens que enviou e a atender esse pedido de segunda via. Com um limite de seiscentas, para a memória não crescer sem parar num programa que fica ligado o dia inteiro.

Entregar não basta: tem que poder repetir. É a diferença entre postar uma carta e postar uma carta guardando cópia. E só apareceu porque alguém do outro lado reclamou — do meu lado o registro dizia “enviado”.

Quem recebe o quê, e a que horas

No dia 76 eu parei de programar aviso e comecei a organizar aviso.

Até então, cada robô decidia sozinho para quem mandava e quando. Isso funciona com dois robôs e vira bagunça com cinco. Nasceu uma tela única onde se define, para cada tipo de recado, quem recebe e a que horas — e onde os relatórios recorrentes têm hora marcada, editável por quem usa, sem depender de mim.

Três decisões pequenas dessa tela que valem mais do que parecem:

“Digest” virou “Boletim”. Palavra em inglês numa tela que o gerente abre no meio do turno é obstáculo, não estilo.

O destino virou escolha: gerente, loja, ou os dois. Parece detalhe e não é — quem está no balcão é quem pode agir agora; o gerente às vezes está em outra unidade. Passar a avisar o telefone da loja, e não só o da pessoa, encurtou o caminho entre o aviso e a ação.

O boletim virou por loja, com um cartão visual, o logotipo e o detalhe por marca. Antes era um texto só, com tudo junto, e cada gerente tinha que procurar a parte dele.

Foi ao ar às três da tarde daquele dia, para todos os gerentes.

O reciclo que derrubou a vigia

Junto disso, uma manutenção óbvia: os navegadores que os robôs usam vão inchando ao longo do dia, então marquei um reinício automático duas vezes por dia.

Na mesma tarde o reinício derrubou a Sofia no meio do trabalho.

O conserto foi ensinar a manutenção a ter hora de não fazer nada: um intervalo mínimo entre um reinício e outro, e reiniciar só o que estiver realmente parado, em vez de reiniciar por relógio. Manutenção automática que não sabe recuar vira a própria falha que ela deveria evitar.

O sistema encosta no dinheiro

E aí veio a virada de assunto da semana.

Até aqui este diário fala de pedido, cardápio, atraso, cliente. Nos dias 77 a 79 o sistema começou a mexer com pagamento: montar o arquivo que o banco entende para pagar uma leva de boletos e fazer transferências, ler o arquivo de resposta que o banco devolve, e manter o cadastro de quem recebe — fornecedores, prestadores, funcionários.

Vale contar por que esse caminho é por arquivo, e não por um site.

O banco tem uma porta de entrada antiga: um arquivo de texto em que cada informação ocupa uma posição fixa, contada caractere a caractere, num formato que existe há décadas. É chato de montar e implacável — um espaço a mais e o banco recusa o lote inteiro. Mas ele não muda. Depois da semana em que o desenho de uma tela mudou de um dia para o outro e me derrubou, um formato velho, feio e estável parecia presente de aniversário.

Foram anos e anos pagando boleto a boleto, e agora, em poucos cliques, o nosso portal gerava um arquivo de remessa com todos os pagamentos do dia. Depois disso, como diz Seu Boneco: “é só ir pra galeeeeeera!!!”. Rsrs.

Também entrou no ar, nesses dias, a leitura das conversas do atendimento com um resumo automático — o que os clientes reclamam, com as frases deles —, e a ação de pausar um produto no app de delivery ganhou algo que faltava desde sempre: conferir na volta se o produto pausou mesmo.

A lição desses dias

As três histórias da semana são a mesma história. O contato ressuscitava e o sistema dizia “atualizado”. A mensagem ficava presa no “Aguardando” e o sistema dizia “enviado”. O reciclo derrubou a vigia e a manutenção dizia “concluída”. Nos três, o programa fez o que eu mandei, escreveu OK no registro, e o mundo lá fora estava diferente do que o registro dizia.

Passei a desconfiar da palavra “sucesso” quando ela vem do meu próprio lado. Sucesso é o que o outro lado confirma: o cartão que voltou com o dado novo, a mensagem que apareceu na conversa, o produto que aparece pausado quando eu pergunto de novo. E entrar no dinheiro tirou o assunto do campo das ideias: um aviso que não chegou custa um cliente irritado; uma transferência que o sistema deu como feita e não foi custa uma conta em atraso e um fornecedor sem receber.

No próximo capítulo, eu tiro a última tela do caminho: a Sofia para de olhar o painel como uma pessoa e passa a perguntar direto — e o Mac mini, enfim, esfria.

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