
Dias 70 a 74 · 3 a 7 de junho – 2026
Nestes cinco dias eu aprendi na marra o preço de construir em cima da casa dos outros: o WhatsApp trocou a interface de um dia para o outro e derrubou quase tudo que mandava mensagem. Foi também a semana em que comecei a procurar um caminho que não dependesse de navegador nenhum — e em que os mensageiros ganharam nome.
O dia de um conserto só
O dia 70 tem exatamente um registro. Um.
E ele é este: depois de reiniciar a máquina, os navegadores dos robôs não subiam. Cada um deles deixa para trás um arquivo de tranca enquanto está funcionando, para que ninguém abra dois ao mesmo tempo. Quando a máquina desliga de repente, a tranca fica lá, órfã — e no arranque seguinte cada robô encontra a tranca do seu antecessor, entende que já existe outro rodando e desiste em silêncio.
O conserto foi ensinar cada um a limpar a própria tranca velha antes de subir. Cinco linhas.
Registro isso porque um dia de um conserto só parece dia perdido, e às vezes é o contrário: era o defeito que deixava a operação inteira cega depois de qualquer reinício, e ele ficou escondido justamente por só aparecer quando a máquina reiniciava — o que não acontece todo dia.
O dia em que o WhatsApp mudou de cara
No dia 72 nada do que mandava mensagem funcionava direito, e eu não tinha mudado nada.
O WhatsApp na versão de navegador foi remodelado. Para uma pessoa, é um visual novo e a vida segue. Para um robô, é o chão sumindo: ele encontra as coisas na tela pela estrutura interna da página, e aquela estrutura tinha virado outra.
Quebrou em camadas, e cada uma levou um conserto próprio:
Achar a conversa. A busca deixou de responder ao jeito antigo de clicar. Passou a procurar pelo título exato da conversa e, quando o clique normal não é aceito, forçar o clique na linha da lista.
Escrever. O campo de digitação virou outro tipo de editor, desses que não aceitam texto colado por fora. Foi preciso inserir o texto do jeito que o editor novo entende — senão a mensagem simplesmente não aparecia no campo.
Enviar. A tecla Enter parou de disparar o envio em algumas situações. Entrou um plano B: se o Enter não funcionar, clicar no botão de enviar.
Anexar. O envio de arquivos quebrou por conta própria e precisou ser refeito.
Cada um desses é uma linha no registro do dia. Juntos, são o retrato de uma dependência que eu tinha subestimado: o robô não usava uma ferramenta, ele usava o desenho de uma tela. E desenho de tela é a coisa que mais muda no mundo, sem aviso e sem obrigação nenhuma de me avisar.
O falso “enviado”, de novo
No meio dessa bagunça apareceu o mesmo fantasma de duas semanas antes, agora numa roupa nova.
Ao mandar um PDF, o robô soltava o arquivo na conversa e dava a tarefa por concluída. Só que soltar o arquivo não é enviar: o WhatsApp ainda precisa terminar de subir o anexo, e um relatório grande leva alguns segundos. Se o robô fechasse a janela nesse intervalo, o arquivo sumia no caminho — e o registro dizia “enviado”.
Duas correções: esperar o envio do anexo terminar de verdade antes de seguir, e passar a conferir na tela se a mensagem apareceu na conversa antes de declarar sucesso.
É a terceira vez neste diário que eu escrevo alguma versão de “conferir se aconteceu de verdade”. Já não trato mais como coincidência: sempre que um programa fala com um sistema de fora, a resposta dele é uma intenção, não um fato. O fato precisa ser olhado.
Sair do navegador
Foi aí que eu parei de consertar e comecei a pensar.
Todo esse sofrimento vinha de uma escolha antiga: mandar mensagem fingindo ser uma pessoa numa página de navegador. Funcionava, mas me deixava refém do desenho da tela alheia — e a semana tinha acabado de provar o tamanho da conta.
Existe outro caminho: conversar com o serviço por dentro, sem tela, sem navegador, sem janela para roubar o foco de ninguém. Comecei por uma prova de conceito e, no dia seguinte, deixei o novo caminho instalado atrás de uma chave desligada — o sistema inteiro continuou usando o jeito antigo, e o novo ficou lá, dormindo, esperando ser provado.
Vale explicar por que não troquei tudo de uma vez, mesmo com o jeito antigo me dando trabalho. Porque a semana que quebrou não me ensinou a odiar o navegador — me ensinou que eu não controlo a casa dos outros. O caminho novo também é casa alheia. Trocar de dependência às pressas, no susto, é como mudar de casa por causa de uma goteira, sem ver o telhado da nova.
Aqui vale um relato atemporal porque estou redigindo esse capítulo cerca de 2 meses depois do ocorrido, ou seja, estou em meados de agosto. E na semana passada encontrei meu primo tricolor que me abriu os caminhos para estar aqui agora e ele me confessou que nem ele mesmo sabia como eu havia conseguido integrar o WhatsApp no sistema. Vou mentir não: deu uma pontinha de orgulho dessa decisão de ter migrado para um ambiente sem tela para o WhatsApp. Pense num sábado abençoado que foi esse dia que eu decidi isso!!
Os mensageiros ganham voz
Junto disso veio uma mudança pequena e simpática. As mensagens do sistema chegavam todas iguais, sem assinatura, e ninguém sabia quem estava falando: era o vigia de atrasos? o relatório da noite? o aviso de importação?
Cada mensageiro ganhou um apelido, assinado na mesma linha do recado. O grupo passou a saber, de relance, de quem é a voz.
Um dos apelidos era uma brincadeira com um narrador esportivo famoso, e ele durou pouco: virou um nome sóbrio, o “plantão” da casa. Foi decisão consciente. Apelido interno engraçado é ótimo até o dia em que ele aparece num relatório que sai da empresa — e aí você tem que explicar a piada para alguém que não tem obrigação nenhuma de achar graça.
A terceira sessão da Sofia
E a Sofia cresceu de novo.
Ela já vigiava duas coisas: o aviso de pedido que pode atrasar e o pedido parado na cozinha. Faltava o terceiro pedaço, que é o que o cliente mais sente: o pedido que já saiu e está atrasando na rua.
Isso virou uma terceira frente de trabalho, com navegador próprio e isolado dos outros dois — a essa altura já era regra da casa que cada tarefa pesada mora na sua própria janela. Nasceu desligada, foi para produção depois de provada, e ganhou uma proteção contra a fonte de dados oscilar: quando a informação vai e volta, o robô podia entender que era um pedido novo e avisar o mesmo cliente duas vezes. Passou a lembrar por um tempo quem já recebeu recado.
A babá também ficou mais esperta. Quando eu atualizo a Sofia, ela reinicia — e a babá, que só sabia distinguir “de pé” de “caída”, enxergava uma atualização normal como um robô morrendo em laço. Ganhou um período de carência: só grita se o problema se repetir.
A lição desses dias
Fica uma frase que eu não teria escrito dois meses atrás: automação não é código, é acordo com terceiros.
O código que escrevi para mandar mensagem estava certo. Continuou certo a semana inteira. Quebrou assim mesmo, porque a outra ponta mudou de ideia sobre onde ficam os botões — e não devia nada a mim.
Isso muda o que eu considero “pronto”. Antes, pronto era funcionar. Agora, pronto é funcionar e avisar alto quando parar de funcionar e ter um plano de saída para o dia em que a casa alheia mudar a fechadura. Os três. As duas primeiras semanas deste diário eu teria chamado isso de exagero. Hoje chamo de aluguel: quem constrói em terreno dos outros paga essa conta todo mês, e o boleto chega sem aviso.
No próximo capítulo, a conta do aluguel vence: eu finalmente troco o mensageiro — e descubro o que acontece quando um robô que já era rotina precisa ser apresentado de novo para a operação.
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