
Dias 50 a 54 · 14 a 18 de maio – 2026
Cinquenta dias. Nestes cinco, aconteceram as duas coisas que mais mudaram minha relação com o sistema: eu parei de traduzir o que queria para a linguagem da máquina, e um dos programas deixou de ser “o script” para virar alguém.
Antes, a faxina
O dia 50 foi de arrumação, e eu já aprendi a não desprezar esses dias. Versionei os atalhos que eu usava para começar e terminar o trabalho — aquelas sequências que a gente digita todo dia e que só existem na própria máquina, até o dia em que a máquina morre e você descobre que perdeu o que nunca tinha guardado.
Também mudei uma coisa pequena na conferência de caixa: divergência que ainda pode se resolver sozinha agora aparece em âmbar, não em vermelho. Vermelho é para o que exige ação. Se tudo grita, ninguém escuta — foi a mesma lição das cores da tela de notas, aparecendo de novo cinco dias depois, noutro canto.
Escrever o que quero, em português
O dia 52 é o maior de todo o projeto até aqui. Um módulo inteiro nasceu, de ponta a ponta, num dia só: Integrações com Apps de Terceiros.
O problema que ele resolve é antigo e chato. Faltou um ingrediente, e é preciso pausar um produto em algumas lojas na plataforma de delivery. Fazer isso à mão significa entrar loja por loja, achar o item, pausar, e depois lembrar de despausar. Com onze unidades e um cardápio grande, é meia manhã perdida — e a chance de esquecer uma loja despausada é enorme.
O que construí foi uma caixa de texto. Você escreve, em português, o que quer que aconteça: pausar tal produto em tais lojas. O sistema entende, mostra na tela exatamente o que vai fazer, em quais lojas e em quais itens, e espera sua confirmação. Só depois executa.
Três decisões desse dia importaram mais que o resto:
A confirmação antes de agir. O sistema nunca executa direto o que entendeu. Ele mostra a lista e pede o “pode ir”. Quando a ordem vem em linguagem livre, sempre existe a chance de a máquina entender outra coisa — e a hora de descobrir isso é antes, não depois.
A reversão. Toda operação pode ser desfeita com um botão. Pausei o que não devia? Um clique e volta. Sem isso, ninguém tem coragem de usar a ferramenta, e ferramenta que dá medo não é usada.
Os complementos. O sistema não pausa só o produto: pausa também os acompanhamentos ligados a ele. Foi um trabalho a mais que ninguém tinha pedido, mas pausar o refrigerante e deixar o combo que o contém à venda é o tipo de meia-solução que gera pedido cancelado.
No dia seguinte apliquei o mesmo desenho — escrever em português, conferir na tela, confirmar, poder desfazer — num segundo módulo, dessa vez para gerenciar os anúncios das lojas na plataforma. Com o caminho aberto, foi muito mais rápido.
Um esbarrão entre robôs
Nesse mesmo dia apareceu um problema que só surge quando o sistema cresce: dois programas quiseram usar o WhatsApp ao mesmo tempo.
Cada um estava certo do seu lado. Um ia mandar o relatório da manhã, o outro ia avisar de uma loja pausada. Só que existe uma sessão de WhatsApp só, e dois programas mexendo nela ao mesmo tempo dá exatamente no que você imagina: mensagem picada, envio pela metade, sessão derrubada.
Resolvi com uma chave. Quem chega primeiro tranca, faz o que tem de fazer e destranca. O outro espera a vez. É uma solução velha e sem graça — e é justamente disso que se trata quando os programas passam a ser muitos: eles precisam aprender a conviver.
Nesse arrastão consertei também um bug com nome próprio. A marcação de gerentes no grupo falhava justamente com quem tem acento no nome: o sistema comparava o texto letra por letra e não encontrava a pessoa. Passou a comparar ignorando acento.
E então ele ganhou nome
No dia 54 aconteceu a coisa que dá título a este capítulo, e ela começou como uma melhoria técnica banal.
O farol que vigiava o tempo de entrega passou a fazer mais do que avisar: quando detecta que o tempo prometido subiu demais, ele mesmo reduz, sem esperar ninguém. Deixou de ser um sensor e virou algo que age.
Com os gerentes sendo marcados no grupo sempre que o tempo de entrega estava estourado, começou a gozação entre eles: “Fulano, se liga no tempo de entrega!!” — “Beltrano, agora não tem mais como a gente mentir!!”
Foi nesse momento que perguntei: “Galera, esse robô precisa de um nome. Alguém aí se arrisca a batizar ele?” Não demorou nem um minuto e um gerente de uma das lojas de Recife, que coincidentemente nasceu em São Paulo (onde também temos lojas), batizou: “Esse peste tem que se chamar X9!!”
Não teve jeito: virou X9 — o dedo-duro, o que conta tudo. Foi meio brincadeira, e mudou mais coisa do que eu esperava.
A partir do momento em que a mensagem chega assinada por alguém, as pessoas passam a falar com ele. “O X9 avisou.” “O X9 tá certo, a loja tava mesmo devagar.” Ninguém nunca disse “o script de monitoramento avisou”. Um programa com nome entra na conversa; um programa sem nome é infraestrutura, e infraestrutura ninguém discute — nem confere.
Tem um efeito colateral bom nisso: quando o robô erra, as pessoas reclamam dele, não do sistema inteiro. O erro fica com nome e endereço, e o resto continua confiável.
Fechei os dias padronizando todos os relatórios em PDF no mesmo modelo. Documento que sai do sistema com cara de documento do sistema — mais uma vez, forma sendo função.
A lição desses dias
A primeira lição é sobre o modo de dar ordens. Durante cinquenta dias eu traduzi o que queria para a linguagem da máquina: um botão para cada ação, uma tela para cada caso. Escrever em português e deixar o sistema entender inverte isso — mas só funciona com as três travas que descrevi. Sem a confirmação antes de agir e sem o botão de desfazer, entender linguagem livre não é conveniência, é risco.
A segunda é a que eu não esperava. Batizar um programa muda o jeito como as pessoas trabalham com ele. O X9 não ficou melhor por ter ganhado nome — o código é o mesmo. Mas ele passou a ser cobrado, corrigido e defendido, e nada disso acontecia enquanto ele era “o monitor de tempo”. Quando uma coisa tem nome, alguém se importa com ela.
Foi o primeiro. Não foi o último.
No próximo capítulo, os outros robôs começam a ganhar nome e voz — e eu descubro que dar personalidade a um sistema traz um problema que eu não tinha previsto.
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