
Dias 35 a 39 · 29 de abril a 3 de maio – 2026
O Hub de Comunicação tinha nascido no fim do capítulo passado. Esses cinco dias foram sobre descobrir o que fazer com ele — e sobre uma verdade que ninguém avisa: dar voz a um sistema é fácil. Difícil é ensiná-lo a ter bom senso pra saber quando abrir a boca.
Primeiro, parar de deixar entrar o que não é nosso
Comecei com uma limpeza que já estava incomodando. A importação do sistema de frente de loja puxava tudo que encontrava, inclusive lojas que não são nossas. Elas apareciam nos relatórios como fantasmas, sujando totais e obrigando quem olhava a ignorar linha por linha.
Pus um filtro na entrada: o que não é da casa não entra. Parece pouco, mas é a diferença entre um relatório em que você confia e um em que você precisa conferir antes de acreditar. E relatório que precisa ser conferido não economiza tempo de ninguém.
Na mesma leva, consertei um parser que somava errado quando a mesma chave aparecia duas vezes na planilha — em vez de juntar as linhas repetidas, ele deixava uma sobrescrever a outra. Silencioso, discreto, e do tipo que faz o total fechar bonito com o número errado.
E abri uma aba nova pra acompanhar os chamados abertos com a plataforma de delivery: aqueles problemas de pedido que a gente reclama e fica esperando resposta. Antes viviam espalhados em conversa de WhatsApp e memória de gerente. Agora estão numa lista, com status.
O dia em que o sistema virou muitos
O dia 30 foi o mais denso de todo o projeto até ali — passei de uma versão a outra tantas vezes que perdi a conta no meio do caminho. Vou poupar você da lista e ficar no que importa: foi o dia em que o sistema deixou de ser um programa e virou um time de programas.
Nasceu o monitor de pausas — um vigia que fica de olho nas lojas na plataforma de delivery e avisa quando alguma está fora do ar sem que ninguém tenha mandado. Loja pausada é loja que não vende, e o pior é que quase sempre ninguém percebe na hora: percebe quando o faturamento do dia vem estranho. O vigia inverteu isso.
Junto veio um segundo vigia, esse de olho no próprio sistema: ele confere se cada fonte de dados chegou no prazo esperado e mostra na tela inicial um sinal com a idade da informação mais atrasada. É o “sistema vigiando o sistema” que virou mantra lá atrás — só que agora aparecendo pra quem usa, não escondido num log.
E teve uma peça pequena que resolve um problema real de operação: congelar a semana. Depois que a conferência de um período é aprovada, aquilo vira história e ninguém mexe mais. Sem isso, um ajuste feito hoje pode mudar silenciosamente um número que já foi apresentado à direção semana passada — e não existe jeito pior de perder a confiança de quem decide do que o passado mudar sozinho.
Ah, e ensinei o computador a acordar sozinho de manhã, um pouco antes da primeira rotina do dia. Porque de nada adianta agendar tarefa pra máquina que está dormindo.
Arrumar a casa, de novo
Os dois últimos dias foram de faxina pesada — daquelas que não geram nada visível pra mostrar pra alguém.
O projeto tinha crescido rápido e estava com o problema clássico de quem cresce rápido: código repetido em três lugares, arquivos órfãos que ninguém usava mais, configuração espalhada. Passei um tempão juntando o que era igual, jogando fora o que era morto e centralizando o que estava solto.
É o mesmo trabalho invisível de lá do começo, quando limpei o banco de dados — e continua valendo a mesma lição: às vezes progredir é subtrair. Só que agora a casa é bem maior, e a bagunça custa mais caro.
No meio da faxina, registrei uma regra que eu tinha aprendido do jeito difícil: nada sobe pro ar sem autorização expressa. Escrevi isso no documento que orienta meu copiloto de IA, pra não depender da minha memória num dia corrido. Regra que só existe na cabeça de alguém não é regra — é intenção.
O crachá, agora pelo celular
Fechei esses dias voltando na novela mais persistente do projeto: o login que expira.
O sistema já sabia se reconectar sozinho, mas de vez em quando a plataforma pedia confirmação humana — e aí era eu, no computador, resolvendo na mão. Se eu estivesse na rua, o robô ficava esperando.
Montei um jeito de fazer isso do celular. Primeiro com um truque simples de navegador, depois com um atalho de iPhone, mais confortável de usar. Não é bonito na teoria; é ótimo na prática. Ficar preso a uma máquina específica pra destravar um robô é o tipo de amarra que a gente só percebe quando precisa viajar.
De quebra, dei uma repaginada na tela de login e na de definir senha — logo redonda, fontes maiores, um respiro. Detalhe estético? Sim. Mas é a primeira tela que a equipe vê todo dia, e primeira impressão também é parte do produto.
O interessante é que, quanto mais eu avançava, mais desafios vinham e assim aprendi muita coisa. Sempre perguntando ao Claude e avançando.
A lição desses dias
Um sistema que fala muda a relação de quem trabalha com ele. Antes, a informação ficava esperando você ter a boa ideia de ir procurar. Depois, ela vai atrás de você.
Só que a linha entre útil e insuportável é fininha. Aviso demais vira barulho, barulho vira hábito de ignorar, e um alerta ignorado é pior que alerta nenhum — porque dá a sensação falsa de que alguém está vigiando. Foi por isso que os vigias nasceram com régua: cada fonte com o prazo dela, o aviso saindo só quando o atraso é de verdade.
A outra lição é velha e continua verdadeira: regra que mora só na cabeça não existe. Escrever no documento que nada sobe sem autorização não foi burocracia. Foi transformar disciplina em coisa que sobrevive ao dia corrido, ao cansaço e à pressa.
No próximo capítulo, descubro a diferença entre resolver um problema e resolver o problema para outra pessoa — e que todo passo a passo que eu escrevo é a confissão de algo que ficou pela metade.
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