Um robô para cuidar do robô

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Ilustração em estilo cartoon flat: um escritório de madrugada dividido por uma divisória de vidro. À esquerda, o autor do diário está sentado à escrivaninha sob a luz de uma luminária âmbar, com a xícara de café fumegante e a pilha de planilhas ao lado e a lua crescente na janela; sobre a mesa, uma caixa de papelão aberta com uma esfera luminosa grande demais, que não cabe dentro dela, e um sininho de alarme vermelho tombado ao lado. À direita, do outro lado do vidro, fica o cômodo próprio dos robôs: a robô teal, com um crachá liso e vazio no pescoço e uma ampulheta na mão, trabalha de pé dentro de uma cabine luminosa fechada com um cadeado; ao lado da cabine, empoleirado num banquinho, um robô azul com binóculos observa a cabine inteira, e junto dele há uma alavanca de energia com uma luz verde acesa. Mais ao fundo, três envelopes iguais voam em fila única para dentro de uma fresta luminosa na parede, um de cada vez, enquanto um robô vermelho com um apito de árbitro pendurado no peito e um robô amarelo esperam a vez atrás de uma cancela listrada, cada um com o seu envelope na mão.
com IA

Dias 65 a 69 · 29 de maio a 2 de junho – 2026

Nestes cinco dias os robôs mudaram de casa dentro da própria máquina, o mensageiro ganhou uma fila, e nasceu o primeiro robô cujo trabalho é olhar outro robô. Também descobri, do jeito mais bobo possível, que um sistema pode dar alarme falso por causa de um número grande demais.

A mudança de casa

Até aqui todos os robôs rodavam na minha conta de usuário do computador. Funcionava, e era errado.

Errado porque misturava tudo: os navegadores que eles usam abriam junto com o meu, roubavam a tela quando eu estava fazendo outra coisa, e qualquer coisa que eu mexesse na minha conta podia derrubá-los. Havia também o problema de sucessão — se um dia outra pessoa cuidasse disso, herdaria a minha conta pessoal com tudo dentro.

Então os robôs ganharam conta própria na máquina, com um roteiro de mudança escrito passo a passo antes de começar. Não foi indolor. A conta nova não tinha permissão de administrador, e várias coisas que eu fazia sem pensar deixaram de funcionar; boa parte dos consertos desses dias é exatamente isso, uma tarefa por vez descobrindo o que dependia de um poder que a conta nova não tem.

Valeu pelo que veio junto. O navegador do WhatsApp virou um aplicativo dedicado, separado do navegador de gente, sempre aberto — e passou a abrir fora da área visível da tela, para parar de pular na frente de quem está trabalhando. Essa foi uma das reclamações mais antigas e mais justas do dia a dia: o robô mandava uma mensagem, a janela dele saltava por cima do que eu estava fazendo, eu perdia o que estava digitando.

Uma fila para o mensageiro

Aqui tem uma virada de arquitetura que parece burocracia e não é.

Antes, cada robô que precisava avisar alguém mandava a mensagem por conta própria. Quatro robôs, quatro caminhos até o mesmo WhatsApp. Quando dois queriam falar ao mesmo tempo, disputavam a janela — e o resultado era mensagem cortada, mensagem repetida ou mensagem nenhuma.

Passou a existir uma fila central com um único encarregado: os robôs não mandam mais nada, eles pedem que a mensagem seja enviada, deixando o recado numa fila. Um trabalhador só, de cada vez, tira da fila e envia.

A fila entrou desligada, atrás de uma chave que só liga onde eu mandar. Isso virou hábito nesta altura do projeto: coisa nova nasce desligada, e a gente liga quando estiver provada, não quando estiver pronta.

Gritar menos

A Sofia estava avisando demais. Cada pedido perto de atrasar virava uma mensagem no grupo, e num sábado à noite isso é uma metralhadora — todo mundo silencia o grupo, e aí ninguém vê nem o aviso importante.

Mudou para resumos: um a cada meia hora e um no fim, com a contagem do que aconteceu. O mesmo conteúdo, um centésimo do barulho. Ela também passou a cumprimentar o cliente pelo nome e a mostrar, no resumo interno, o que de fato foi enviado a cada pessoa.

É a mesma lição das cores da tela de notas, aparecendo pela terceira vez em um mês: se tudo grita, ninguém escuta. Já estou aceitando que essa vai ser a lição recorrente deste diário.

Um robô para cuidar do robô

E aqui está o assunto do título.

A Sofia trabalha sozinha o dia inteiro, dentro de um navegador. Se ela travar às três da tarde de um sábado, ninguém percebe — não chega mensagem, e a ausência de mensagem parece um dia tranquilo. O modo de descobrir era o pior possível: alguém notar que fazia tempo demais que ela não falava.

Então nasceu um vigia do vigia — uma espécie de babá. De tempos em tempos ele confere se a Sofia está viva; se não estiver, levanta ela sozinho e me avisa que fez isso.

Três detalhes dessa babá merecem nota, porque cada um veio de um jeito de errar:

O primeiro: ela julgava a saúde da Sofia pelo horário do último registro no arquivo de log. Parece razoável e não é — um programa pode estar travado num laço, escrevendo no log sem parar, e parecendo o mais saudável de todos. Passou a olhar o processo em si.

O segundo: quando a Sofia não respondia, a babá reiniciava a Sofia — mas o problema quase nunca era ela, e sim o navegador embaixo dela, engasgado. Reiniciar só o robô era trocar o motorista de um carro com pneu furado. A babá passou a levantar o navegador junto.

O terceiro é o meu favorito, porque é besta: para saber há quanto tempo a Sofia estava de pé, o código pedia esse tempo ao sistema com o nome errado do comando — uma letra de diferença entre duas opções parecidas. O sistema respondia vazio, o código entendia “zero segundos de vida” e concluía que ela tinha acabado de nascer, para sempre. Uma letra.

Ainda nesses dias, a Sofia ganhou uma tranca de instância única: se por qualquer motivo alguém a iniciasse duas vezes, a segunda não sobe. Duas Sofias vigiando os mesmos pedidos significa cliente recebendo a mesma mensagem duas vezes — o tipo de defeito que o cliente nota antes de nós.

Ter um robô vigiando outros robôs e reportando os B.O.´s por WhatsApp foi, de fato, um marco. Veremos adiante que essa prática será replicada em outras ocasiões e me deu a tranquilidade de poder fazer as coisas do dia sem ter que estar pensando se tudo está correndo bem. No fundo, foi uma libertação. Rsrs.

O falso alarme de um número grande demais

Esse é curto e é a minha história preferida da semana.

O medidor de saúde do WhatsApp começou a jurar, de vez em quando, que o navegador estava fora do ar. Eu ia conferir e estava tudo funcionando. Alarme falso, intermitente, sem padrão — o pior tipo, porque ensina a equipe a ignorar alarme.

A causa: para conversar com o navegador, o programa gera um número de identificação usando a hora atual em milésimos de segundo. Esse número, hoje, é grande demais para o tamanho de caixa em que ele estava sendo guardado. Transbordava, virava outra coisa, o navegador respondia “não conheço esse pedido” e o medidor concluía que ele estava morto.

Não havia nada de errado com o navegador nem com a rede. Havia um número que não cabia. Guardo essa porque é a cara de um tipo de defeito que dá muita voltinha até alguém desconfiar da coisa mais banal da história.

Dinheiro na mão de quem opera

Fechando os cinco dias, o módulo de finanças ganhou o livro caixa — o lugar onde a loja registra a entrada e a saída de dinheiro vivo do dia. Ele entrou em quatro etapas, da fundação à integração automática com o fechamento de caixa, e trouxe junto uma decisão de acesso: o gerente enxerga só o livro caixa dentro de finanças, nada além.

Um detalhe da tela merece registro por ser barato e resolver um problema caro: cada loja tem uma cor própria e um aviso grande com o nome dela no topo. O motivo é prosaico — quem cuida de mais de uma loja abre a tela, se distrai e lança o dinheiro de uma na outra. Descobrir isso depois é uma tarde de trabalho. A tarja colorida custou meia hora.

A lição desses dias

O tema da semana foi quem cuida de quem.

Um robô que trabalha sozinho não é confiável só porque funciona. Ele é confiável quando existe alguém — nem que seja outro programa — encarregado de perceber que ele parou. Antes disso, o que existe é sorte com aparência de estabilidade.

E a segunda parte, que eu não esperava: a babá errou três vezes seguidas, e todas as três por confiar num sinal indireto. O log em vez do processo. O robô em vez do navegador. O relógio em vez do relógio certo. Vigiar é uma tarefa tão sujeita a erro quanto a tarefa vigiada — só que o erro dela é mais perigoso, porque um vigia enganado passa uma sensação de segurança que ninguém vai questionar.

É por isso que a tranquilidade que eu conto lá em cima não veio de existir uma babá — veio de ela ter parado de olhar para sinal indireto. Vigia novo dá sossego cedo demais; o sossego só se justifica depois que ele erra e é corrigido.

No próximo capítulo, o WhatsApp muda de cara da noite para o dia e quebra tudo — e eu começo a procurar um jeito de mandar mensagem sem depender de navegador nenhum.

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