
Dias 105 a 109 · 8 a 12 de julho – 2026
Na semana anterior eu ensinei o sistema a insistir: se o arquivo central da nuvem não responde, tenta outra vez. Na madrugada do dia 105 ele insistiu tanto que parou de funcionar. Toda tela do Portal levava oito segundos e meio para abrir — e, quando abria, era para mostrar um erro.
A fila no caixa
O arquivo central da nuvem tem um limite de quantas leituras aceita por vez. Passou do limite, ele pede para esperar um pouco. É o funcionamento normal, e o sistema tinha acabado de aprender a respeitar esse pedido: esperar e tentar de novo.
O problema é que ele tinha aprendido em dois lugares ao mesmo tempo. A leitura central já tentava de novo; e a leitura da lista de usuários, que acontece em toda tela, para toda pessoa logada, tentava de novo por cima. Cada falha virava várias tentativas, e cada tentativa era mais uma leitura na fila.
É como um caixa de supermercado que fica lento, e cada cliente, impaciente, entra na fila de novo sem sair da primeira. O caixa fica mais lento por causa da fila, e a fila cresce por causa do caixa lento. O congestionamento se alimentava sozinho.
O primeiro alarme tocou pouco antes das duas da manhã. O primeiro conserto, às duas e vinte e cinco, cortou a tentativa dobrada em três telas — e não bastou, porque o grosso estava na lista de usuários. O conserto definitivo saiu às quatro e dezenove, com duas mudanças: a lista de usuários para de insistir quando o erro é de congestionamento, e, se a leitura falha, o sistema usa a última cópia que tem, mesmo que já esteja um pouco velha.
Dez dias antes, uma cópia velha tinha sido a vilã do capítulo do WhatsApp que dizia estar desligado. Aqui ela foi a salvação. A diferença não está na cópia; está em saber quando ela serve. Para mostrar se o WhatsApp está conectado, a cópia velha mente. Para saber quem tem permissão de entrar no sistema, a lista de ontem à noite é quase sempre igual à de agora — e é infinitamente melhor do que derrubar todo mundo.
Pedir menos
A pane mostrou outra coisa: a casa estava perguntando demais.
Os robôs que moram no Mac mini conversam com o Portal perguntando, de tempos em tempos, se há trabalho para eles. Alguns perguntavam a cada cinco segundos. Faz sentido para quem precisa reagir rápido; não fazia para quem recebe uma ordem por hora. No dia 105 os intervalos foram alargados, um por um: de cinco segundos para um minuto, de três para oito, de trinta para quarenta e cinco.
E três tarefas deixaram de depender de um robô no Mac mini perguntando: a leitura das notas e chamados do app de delivery, a ligação e o desligamento de anúncios, e a pausa de produtos passaram a ser executadas pelo próprio Portal, na nuvem, no momento em que alguém aperta o botão.
Ainda no dia 105, uma coisa que eu tinha feito de madrugada foi desfeita de manhã. Eu tinha juntado sete telas de indicadores do app de delivery em duas. Às nove e meia, as sete voltaram. No dia seguinte, uma junção menor — notas e chamados na mesma tela, em duas abas — entrou e ficou. Desfazer não é perder: é o sistema dizendo que aquele não era o tamanho certo do passo.
O robô que trabalhava para uma loja fechada
Os dias 106 e 107 foram de limpeza, e a limpeza achou coisas.
Vários robôs precisavam do crachá do app de delivery, e cada um tinha aprendido, por conta própria, a renová-lo quando vencia. Eram renovadores demais, cada um mexendo no mesmo crachá do seu jeito, e de vez em quando um atropelava o outro. Os renovadores foram reunidos num só, e os robôs deixaram de falar com o app diretamente. Agora eles pedem o que querem fazer — pausar este produto, ler estas notas — e uma peça só sabe como e onde fazer. Se o app mudar de endereço amanhã, muda um lugar, e não vinte.
E, na noite do dia 107, um fantasma. Um robô que tinha sido desligado dias antes — ele atendia o portal da franquia, que estava pausado — continuava de pé por um caminho alternativo, perguntando ao Portal a cada cinco segundos se havia trabalho. Não havia, e não ia haver: o portal que ele atendia estava fechado. Eram centenas de perguntas por hora, jogadas fora, no mesmo arquivo central que tinha congestionado dois dias antes. Ele ganhou uma trava: sem ordem expressa, não sobe mais.
Cada robô com seu dono
A madrugada do dia 108 trouxe uma ideia que parece óbvia só depois de escrita: todo robô tem um dono declarado, e é o dono quem diz como ele deve estar.
Até ali, a Babá da Tropa vigiava os robôs, e cada robô se virava para saber o próprio contexto. A partir dali, um supervisor entrega a cada um o que ele precisa para trabalhar, e a Babá passou a saber cuidar de qualquer robô que siga esse contrato, não só dos que ela conhecia de nome. O X9 foi o primeiro a mudar para o modelo novo, ao meio-dia.
Nessa mesma madrugada, o crachá do app de delivery voltou a ser cifrado — agora sem nenhum robô entrando pela janela. A fechadura da semana passada, finalmente, instalada de vez.
Congelar sem apagar
No fim da tarde do dia 108 eu tirei da tela inicial a Central de Operações, que tinha nascido dezesseis dias antes, no capítulo do iCasca.
A ideia é boa, e eu continuo achando que é. Mas as informações que ela mostrava não estavam me ajudando na prática: eu abria, olhava, e ia buscar em outro lugar o que precisava. O cartão saiu da tela inicial, e nada foi apagado. O código continua lá, inteiro, esperando a hora de voltar melhor.
Tem uma diferença grande entre desistir de uma ideia e admitir que a primeira versão dela não serviu.
Uma organização que não vê a do lado
À noite, a última fase do redesenho que começou na madrugada da constituição.
O sistema foi posto à prova com uma pergunta simples: se amanhã uma empresa nova quiser usar isto, ela consegue, sem ninguém escrever código? O teste criou uma organização do zero, e ela percorreu todo o caminho: nasceu, cadastrou as lojas, conectou os sistemas dela, ganhou um canal de WhatsApp próprio, ligou os aplicativos que queria. E, principalmente, nunca viu nada da DMR — nem a DMR viu nada dela.
Aos quatro minutos do dia 109, o Guardião deu o redesenho por concluído. Sete fases, pedidas no dia 99 e encerradas dez dias depois.
O Mac mini volta a dizer a verdade
O dia 109 terminou com duas limpezas que eu queria fazer havia tempo.
Os boletos passaram a ser importados pelo arquivo que o próprio banco gera, em vez de um robô entrar no site do banco pelo navegador. Menos uma sessão aberta, menos um ponto frágil.
E a página de saúde do Mac mini foi reescrita, porque tinha ficado desatualizada de um jeito perigoso: ela mostrava como vermelhas, para sempre, peças que já tinham sido aposentadas, e mostrava tudo verde quando a Sofia ficava cega. Um painel que grita pelo que não importa e se cala pelo que importa é pior do que painel nenhum. Na mesma noite, três robôs foram aposentados do Mac mini, porque o trabalho deles já estava rodando na nuvem.
A lição desses dias
A semana começou com o sistema insistindo demais e terminou comigo desistindo de algumas coisas: da junção de telas, da Central na tela inicial, de robôs que não precisavam mais existir.
Insistir e desistir parecem opostos, mas a regra é a mesma. Tentar de novo só ajuda quando a tentativa tem chance de dar certo — e quem decide isso não pode ser a própria tentativa. O sistema que se afogou na madrugada do dia 105 não sabia quando parar. O conserto não foi ensiná-lo a tentar mais; foi ensiná-lo a parar antes.
No próximo capítulo, o sistema sai da operação dos robôs e entra num assunto mais delicado: as metas dos gerentes.

